terça-feira, 25 de novembro de 2014

CONSIDERAÇÕES AO PÉ DO MAR

Nenhuma palavra diz o mar 
em seu movimento de ondas, 
contra as pedras e contra a areia;

São águas sem fim 
enquanto permaneço na praia,
Mas ele nada diz em seu silêncio profundo.

Tão curta a vida e tão vasto o mar!

Eu cruzei essas venerandas águas
para, enfim, te encontrar.
E nesse pequeno porto eu te perdi.

Nenhuma palavra das ondas,
nenhuma palavra de sal
nenhuma palavra de iodo.
E não é que eu não compreenda
sua fala estrondosa, seu possível dialeto,
porque cedo aprendi a língua dos peixes.
E os peixes ouviram Antônio,
mas não ouviram jamais o mar.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

ABEL E CAIM

(para Antonio Damasio)

De acordo com Nietzsche, 
os homens dizem
a verdade, 
não porque lhes obriga
qualquer Deus
que lhos puna,
mas
porque é mais simples, 
porque é mais fácil, 
e
a mentira é um sem fim
o novelo cujo fio se perde, 

e se não pode resgatar, 
nem reunir
as pedras atiradas ao chão.
Isto sabia o homem 

quando perguntado por seu irmão,
cujo sangue clamava desde as entranhas da terra,
com sua voz vermelha e grossa.
Mas disse: 

serei eu o guardador de meu irmão?
Ora, um crime sucede outro crime
e o desejo tragou o orgulho nascido na inveja 

e esta
no descuido mesmo do cuidador:
pois são os irmãos a se matarem,
e a terra infecunda já, 

e com muito esforço,
se faz crescer o amargo fruto
da estranha planta e sanguínea.

Van Gogh - Oliveiras com céu amarelo e sol






JONAS EM NÍNIVE

Não foi certamente à margem do Tigre
que Jonas cansado e coberto pela fedorenta 
gosma do peixe
lançou imprecações contra aquele mesmo Deus
que não deu nenhum valor,
nenhuma importância
para essa fenomenal aventura,
esse
descomunal mistério.

Não.
Tinha apenas o propósito de que Jonas seguisse em frente
e não temesse ser escalpelado ou empalado e,
que,
chegando incólume às portas de Nínive,
falasse em praça pública contra os atônitos assírios
com argumentos invencíveis,
para que se arrependessem estes
de toda uma vida de atrocidades e sevícias.
E assim se dá.

Porém, nada disse sobre aquela viagem
no vente do peixe
e limitou-se às ameaças terríveis
à cidade terrível -
de modo que ninguém saberia através dos tempos,
nem havia testemunhas
ao pé do mar da Palestina.

Sozinho, sentou-se Jonas novamente
em uma praia distante,
com raiva de que Nínive viveria,
porque se redimira,
conforme o propósito de Javé.
E ali mesmo escreveu um livro sobre o grande peixe,
para que ninguém duvidasse
de que Nínive não tinha importância alguma,
e que havia ele ressuscitado
antes mesmo de ter morrido.



sábado, 15 de novembro de 2014

LÁZARO RESSUSCITADO

Não é a mente o continente do mundo.
Que hora tão triste e que tarde sem aragem.
Os olhos redivivos miraram mais uma vez
A luz do mundo;
(Quatro dias como quatro estações)
Por trás do sudário que lhe cobria o rosto
Lázaro, sequer, chorou
Como quando, saído do ventre de sua mãe,
foi apartado daquela umbilical atadura.
Apartadas essas, agora, que lhe prendiam os pés
Caminhou insepulto
E, talvez, procurou pela voz que lhe ordenara
gravemente
Sair da gruta escura onde apodrecia
e desligar-se da morte.
Ou, então (nós não compreendemos o mundo)
Lázaro chorou copiosamente.
O cheiro das oliveiras e o deserto ao longe,
os gritos de suas irmãs.
Retornado do ventre da terra, 
sob a luz indecifrável de um sol jamais visto,
Os olhos voltados para Jerusalém,
Lázaro chorou,
Porque a vida é um caminho sem volta.
Imagem colhida no Google


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

AS PALAVRAS E AS COISAS

Repara. Há mais coisas no mundo
do que
palavras com que dizê-las.
É certo
que há uma miríade de coisas
sem nome, e,
esquecidas.
O coração de metal (esfíngico)
retirado
de um prendedor de roupas -
no azul da manhã.
O quarador a suspender
essa coleção; essas.
as fubecas, selos, latas
de cerveja;
inclusive
palavras desenhadas em cadernos
dispersos; e estes.
O invisível primeiro, depois
o visível; o espanto antes, depois
o nome.

Cello in Yellow - Alexandra Kube

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

AS XICARAS

Esta vida há de me matar,
impiedosamente; 
com o sol e seus bilhões
de nêutrons.
Haverá de dar cabo de mim
e de todos nós,
sem nenhum espetáculo
sem nenhum alarde,
esta vida

estas ruas fedorentas
esta gente faminta -
há -
os parques entulhados;
as cotas diárias de desespero.
as xícaras
cheias do vexame alegre
e dessa confiança
que não é senão a inútil
agitação,
inútil e moribunda.


domingo, 7 de setembro de 2014

OS VELHOS

(para Fernando e Cecília)

Ainda hoje os velhos jogam dominó
ou damas
ao pé da igreja de São José
sob as árvores do Largo do Belém,
nem mesmo interessa-lhes o sexo,
inclusive o amor e suas ilusões.
Não porque são velhos -
o tempo não arrefece, por si só,
aquela chama.
Não, não o tempo,
as tibiezas do corpo em declínio, talvez,
um pouco.
As fábricas e as horas extras,
a vida que não se ganha em grandes nacos,
mas as migalhas distribuídas
cotidianamente,
e a escuridão
da antemanhã e da noite,
os bondes e elétricos, os ônibus
e as composições de trem.
Há quem diga que esse mundo
não mais existe,
e que o trabalho se transfigurou,
mas ainda hoje
os velhos jogam damas
sob as árvores do Belém
ao pé da igreja de São José.


domingo, 31 de agosto de 2014

EXUMAÇÕES

(para Inês Monguilhott)

Vou dizer que é quase, quase
impossível
qualquer transmutação,
não das almas
que não sei onde moram.
Para dizer a verdade,
nem mesmo creio nessa divisão esdrúxula,
o que tenho visto,
o que me foi dado conhecer
passa muito longe de qualquer
metafísica.
Pronto! Que história é essa?
Passando por aqueles bairros
periféricos,
por aquelas cidades dormitório,
o que vejo é uma mesma e cruel
lógica,
o reproduzir-se inerme dessa mesma
gente sem alma,
ou
que tanto faz se algum anjo
lhas soprou as narinas.
Não quero com isso afirmar
nem infirmar. Espera.
No cemitério de Santa Lídia,
nas casas iluminadas
pela chaminé perene
do complexo petroquímico,
sim,
existe inclusive o amor,
o café, o leite
e os meninos que apanharam
um lambari
enquanto eu ia cruzando
as estações na antiga Santos-Jundiaí.



sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O FANTASMA

Não é da morte que eu tenho medo,
essa sorrateira.
Nem do paulatino esquecimento
do que se foi fazendo tão cuidadosamente.
De certa forma, mesmo esta manhã
já semeou algum futuro incerto.
Não, nem da morte tenho medo,
mas desta fantasmagórica condição,
e deste horrível e vão sofrimento.

imagem colhida no Google


terça-feira, 18 de junho de 2013

NAVIO NEGREIRO

Cedo, ainda muito cedo, com a noite vestida com seu manto azul, 
meu pai costumava me acordar com um leve pontapé nas costelas, 
eu que dormia no chão, em um colchãozinho.
Não, não há mágoas, há memórias. Há um desconsolo,

há o que tornou-me homem feito e que não gosta de acordar as crianças em sobressalto.
Sim, ferro contra ferro, o cheiro ácido das rodas do trem contra os trilhos na estação 

enevoada e escura. Caminho para o trabalho. O dia ainda vestido com o manto negro da noite.
O trem, como um grande navio negreiro, recolhia aflitos, 

da multidão de trabalhadores, os rostos, os sonolentos rostos e espantados.
Pais e filhos, mães e filhas. José, Maria, José. 

São muitos os grilhões, são muitas as cadeias. É preciso a libertação, sim. 
É preciso.
Há muito os navios cruzam os oceanos por causa do comércio: do café; 

do açúcar; do alho; do sal que salga a vida. É preciso um oceano de tempo. 
O meu pai tem o meu perdão.