Dizia minha pobre mãe que o tempo muda de direção.
A infância que perdi.
A juventude que também perdi;
o velho cão asmático.
Havia um riacho cheio de peixes translúcidos;
e a grama coberta pela geada.
O automóvel azul.
Eu guardei segredos,
guardei moedas que já não tem valor.
O medo, o espasmo.
O primeiro amor que nunca veio.
Curau de milho.
Chumbo derretido sobre a placa de zinco.
As casas inacabadas;
pequenos prêmios em palitos de sorvete.
Surpresas e goiabas.
As palmeiras imperiais que indiferentes me fitam
quando cruzo o Viaduto do Chá,
no tempo em que o tempo muda de direção.
quinta-feira, 21 de março de 2013
terça-feira, 5 de março de 2013
O CISNE NEGRO, O ORNITORRINCO, O RELÓGIO PARADO
O que não se apresenta de maneira habitual;
o que é incomum; o que é raro.
Isso, é o insólito.
Pois que gosto do que é insólito.
Da casa azul subitamente vista na colina verdejante.
O morcego que rasante passa pelo quarto em silêncio.
O cisne negro, o ornitorrinco, o relógio parado.
No campo de flores vermelhas a cobrir a planície,
o lagarto, a ave de rapina, a cascavel que espreita um rato.
o que é incomum; o que é raro.
Isso, é o insólito.
Pois que gosto do que é insólito.
Da casa azul subitamente vista na colina verdejante.
O morcego que rasante passa pelo quarto em silêncio.
O cisne negro, o ornitorrinco, o relógio parado.
No campo de flores vermelhas a cobrir a planície,
o lagarto, a ave de rapina, a cascavel que espreita um rato.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
METADE
Metade da obra não é a obra.
metade
É terem ficado os mares
secos.
metade
do dia, noite.
metade
do rio, leito nulo,
a asfixia das plantas.
Metade
do sexo,
esterilidade.
Metade
É o filho dividido pela espada
ninguém sendo mãe.
Metade
da vida,
morte.
Metade do mundo bebe leite,
cresce, ama, se identifica,
chora
se comove,
metade
não se move.
metade são cidades iluminadas
perfeitas
celestes,
metade são tristezas
lixeiras
viveiros
somálias áfricas américas
latinas.
metade
É terem ficado os mares
secos.
metade
do dia, noite.
metade
do rio, leito nulo,
a asfixia das plantas.
Metade
do sexo,
esterilidade.
Metade
É o filho dividido pela espada
ninguém sendo mãe.
Metade
da vida,
morte.
Metade do mundo bebe leite,
cresce, ama, se identifica,
chora
se comove,
metade
não se move.
metade são cidades iluminadas
perfeitas
celestes,
metade são tristezas
lixeiras
viveiros
somálias áfricas américas
latinas.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
A NATUREZA DA CHUVA
Esperamos pelas águas sagradas e profusas; nelas o próprio espírito de Deus
pairava e não havia dia nem noite; esperamos pelas águas,
pelo milagre do que é fluido, como fluida é a própria vida;
esperamos pelas águas ternas e límpidas,
pelo beijo da chuva, seu beijo prateado. Esperamos.
Esperamos pelas águas rasas e profundas; à beira mar, na beira rio,
sob as pontes iluminadas a vapor e medo; esperamos pelas águas,
pelo tempo do que é belo e frágil; como bela e frágil é a própria vida;
esperamos pelas águas frias e cáusticas,
pelo canto da chuva, seu canto melismático. Esperamos.
Esperamos pelas águas calmas e profícuas; no ancoradouro,
no Rio Amarelo, na aldeia, no Tigre e no Eufrates;
esperamos pelas águas, pelo quase nada da vida,
que é fluida como a própria chuva; esperamos pelas águas
eternas e verdadeiras,
seu sussurro de águas, a revelar um segredo. Esperamos.
sexta-feira, 20 de julho de 2012
SONETO DAS BALEIAS
As baleias brincam e soltam borrifos
azuis na água azul, com perícia e arte
maior que a maior arte de todos os grifos,
e são elas brancas, orcas, jubartes.
As baleias não são peixes, são antes e
antes de serem bois disfarçados e gigantes,
estrelas de constelações distantes,
que as não percebe a mente nem olho as vê.
Senhoras desse mar do nosso encanto
que cantam e fazem ecoar o pranto
mesmo do universo e o seu segredo,
as baleias cruzam o mar do nosso medo,
fazendo-nos ainda que nunca o queremos
homens pequenos dos mundos que não temos.
![]() |
| imagem colhida no google |
quarta-feira, 18 de julho de 2012
A SEPARAÇÃO
Lugar nenhum
é esse em que nos encontramos
agora
e não diga nada
porque palavra nenhuma
razão para dizer
nem por isso, meu amor,
estamos silentes
e nem por isso
perdidos.
Sobre a matéria das coisas
sobre o brilho
das coisas
sobre as sombras de toda vida
cantamos -
com nossa voz menos dura
um salmo:
perdão.
Estamos de mãos dadas e partimos
para não querer nada
para não perder nada
não porque estamos absolutos
mas porque não nos distinguimos
de nada.
é esse em que nos encontramos
agora
e não diga nada
porque palavra nenhuma
razão para dizer
nem por isso, meu amor,
estamos silentes
e nem por isso
perdidos.
Sobre a matéria das coisas
sobre o brilho
das coisas
sobre as sombras de toda vida
cantamos -
com nossa voz menos dura
um salmo:
perdão.
Estamos de mãos dadas e partimos
para não querer nada
para não perder nada
não porque estamos absolutos
mas porque não nos distinguimos
de nada.
domingo, 1 de julho de 2012
NA
Nenhuma com ligeiros passos, com seus laços
gracios-
os braços entr'as dançarinas roda, gira
estira
o tempo, seu passar, faz jazidos dias
revindos.
Nenhuma entr'as canto entr'as pastoras
caminha semblando o sol semblado
semeando vinhas de ver-
des uvas
Nenhuma entr'as mulheres em suas casas
de asas
revoa a noa noa, vento perdoa
esse desatento
a desatar os perjazidos dias meus feridos.
Nenhuma com calmas mãos perdoara.
gracios-
os braços entr'as dançarinas roda, gira
estira
o tempo, seu passar, faz jazidos dias
revindos.
Nenhuma entr'as canto entr'as pastoras
caminha semblando o sol semblado
semeando vinhas de ver-
des uvas
Nenhuma entr'as mulheres em suas casas
de asas
revoa a noa noa, vento perdoa
esse desatento
a desatar os perjazidos dias meus feridos.
Nenhuma com calmas mãos perdoara.
![]() |
| Theodore Hassam (American Impressionist painter 1859-1935) Improvisation 1899 |
segunda-feira, 18 de junho de 2012
O POETA
(Para João Luis Malange)
Embora sendo fevereiro
fosse agosto ou dezembro,
por processo normal do universo,
houve de rebentar
de alguma barriga,
algo de humano e carne.
E fizeram bolos e poemas
e alguns segundos bastaram,
vários olhos se entristeceram,
vários palhaços fizeram palhaçadas
vários operários
fizeram coisas úteis
aos braços e aos corpos.
As cidades estavam povoadas
e não caberia que se nascesse mais,
mas
era teimoso e disse
"a ".
Embora sendo fevereiro
fosse agosto ou dezembro,
por processo normal do universo,
houve de rebentar
de alguma barriga,
algo de humano e carne.
E fizeram bolos e poemas
e alguns segundos bastaram,
vários olhos se entristeceram,
vários palhaços fizeram palhaçadas
vários operários
fizeram coisas úteis
aos braços e aos corpos.
As cidades estavam povoadas
e não caberia que se nascesse mais,
mas
era teimoso e disse
"a ".
sábado, 2 de junho de 2012
APOCALIPSE
Depois da porta de vidro
depois
do brilho desse sol
quase me cegando
depois do automóvel
depois da rua
há um letreiro.
Difícil
ver daqui o anúncio.
Leve música de talheres
embala
esse meio-dia
claro.
O rádio
grita de guerras possíveis -
ogivas
atômicas -
vocabulário apocalíptico.
Não sei que símbolos
se propõem agora
a ser o momento -
uma mulher olha o relógio
é tarde
é tarde nos seus olhos
é tarde
no meio dia claro
é tarde nos edifícios
onde o sol se recolheu, por fim.
É tarde no cinema
na China
é tarde na Inglaterra, em Antuérpia
é tarde
e os diamantes brilham demais.
depois
do brilho desse sol
quase me cegando
depois do automóvel
depois da rua
há um letreiro.
Difícil
ver daqui o anúncio.
Leve música de talheres
embala
esse meio-dia
claro.
O rádio
grita de guerras possíveis -
ogivas
atômicas -
vocabulário apocalíptico.
Não sei que símbolos
se propõem agora
a ser o momento -
uma mulher olha o relógio
é tarde
é tarde nos seus olhos
é tarde
no meio dia claro
é tarde nos edifícios
onde o sol se recolheu, por fim.
É tarde no cinema
na China
é tarde na Inglaterra, em Antuérpia
é tarde
e os diamantes brilham demais.
sábado, 26 de maio de 2012
DA BREVIDADE DA VIDA
São duas horas da manhã, Talvez durmas...
neste momento eu me pertenço, e assim,
realizo em mim uma fantasia
a saber,
a de que, neste momento, não pertenço a ti.
Ainda posso sentir em minhas mãos
o calor e a maciez de uma mão de mulher.
Indeterminada mulher que está, que corre, que escorre
no meu sangue.
Resiste entre os meus dedos alguma coisa
que é como a sensação de tocar, porém,
mais concreta, mais viva.
Vive em mim o toque,
o toque branco de mãos que se revolvem no meu
estômago
junto ao líquido elemento
dessa bebida intraduzível, que eu,
por cansaço, chamaria
de madrugada.
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