domingo, 15 de novembro de 2020

ELA, A QUEM AMEI IMPERFEITAMENTE

Ela, a quem amei imperfeitamente,
está, agora, mesmo que disso
não saiba
a povoar os sonhos em mim
de um amor irreparável.
Com ela falo, silente,
e sem resposta
das vozes silenciadas dentro de mim.
Eu que perscruto a noite e perscruto
o dia
hei, afinal e inexoravelmente,
de não ter nenhuma vontade
e nenhuma dúvida.
Por ora, como o leão atado à sua presa,
como o gnu
preso à sua sina,
eu a ouço ainda, agônico,
agora,
agora e para sempre.

Edward Munch - Separation

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

DÉBORA

Há deuses interditos e templos venais cheios de prostitutas 
e de ouro.
O teu vaticínio, Débora, é a tempestade, 
o caudal a encharcar o campo
e líquida a tua palavra,
assim como úmidos são os teus lábios e vermelhos.
Ramos de palmeira os cabelos, verdejante,
ao vento que dita sentenças nas montanhas de Efraim
A água, o vento, o fogo são teu deus imortal e invencível.
A natureza contra a arte, o artifício,
o metal contra a metalurgia.
Dizes também que o sono é irmão da morte
e esta é mulher de delicadas mãos, de suaves gestos.

Giacomo Amigoni


 

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

CLAREIRAS

Deléveis, as formas
imergem virgens, difusas.
É o geômetra,
perscrutando números,
não coisas,
é o iludido geômetra,
sôfrego, quem primeiro vê
o que não tem signo,
o que não se iluminou
e jazia
na fibra da terra,
tal como na fibra do olho.

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

DOR E MEDO E GELO E FOGO


Nem amargo nem doce - 
Há, tão somente, os átomos e o vazio;
a multicolorida face não
nem as constelações no carrossel da noite imensa.
Dor e medo e gelo e fogo - 
as coisas findas e seus contrários -
nem amor nem morte (desejo - falta ) 
e os parques e as parcas,
os porcos.
Em vez disso, apenas se pressupõe o movimento. 
Não há
a água no mar salgada nem os pastos, pradarias 
- a alma -
mistura mística que afirma-se piedosamente, talvez. 
Mas olha
nos teus olhos líquidos e verdes 
- teus cabelos tão belos -
olha, veja, as mãos que tocaram com ternura e força 
o teu corpo;
e a tristeza que meu coração despeja na corrente sanguínea.
Nada disso há e jamais se engane. 
Há os átomos e o vazio,
o vazio e os átomos.

 

segunda-feira, 1 de julho de 2019

CARPE DIEM

O instante e só
e, propriamente,
não se dirá
proveito.
Para o homem
debaixo do sol?
Pois que o tempo
nomeou-se-lhe
Kronos,
o devorador.
E a hora,
fluída como a água,
tempestas.
A tempestade - Giorgione Barbarelli

segunda-feira, 24 de junho de 2019

O CONCERTO PARA PIANO E ORQUESTRA OPUS 20 DE ALEXANDR SCRIABIN

Um silvo longo e tênue vaza a floresta
que é quietude e imensidão.
a forma de tudo é mais breve
e a vida no meio de tudo é infinda,
na calma noite anoitecendo
na calma noite
na calma silenciosa noite descendo
um choro.
tanta lágrima e tanta estrela
morrendo,
tanto nascimento e morte
no girar-se o universo calmamente.
um choro longo e tênue molha o rosto
que é terra e solidão.
A alma de tudo é tão leve
e a leveza do corpo de tudo é linda,
ainda que uma dor sendo
ainda que uma dor
uma dor no olho cantado
em coro.
ainda que arda na carne o tempo
e tudo arda e doa
e tudo mate e alegre, sequestre
e devolva
tudo é esse choro na noite - som
caindo da terra no céu.

Amarelo, Vermelho e Azul - Wassily Kandinsky

DA INSÔNIA

O vento lá fora seu sibilar
enche de pavores essa noite
plena de horas da morte,
um cão que uiva e o universo
como um peso, esfera
de chumbo.
Janelas desee quarto de mudas
paredes brancas, por onde escorre
o líquido viscoso da insônia,
não é bom que o homem seja só,
como a terra desapostada,
sem conhecer portas de trevas ou luz,
não é bom esse silêncio
quebrado pelas batidas visíveis
de um coração por onde corre
um sangue gélido de réptil.

O sono da razão produz monstros - Francisco de Goya

quinta-feira, 20 de junho de 2019

TARDE

Não. Você não é a sombra da tarde
aquela enorme sombra, final do dia
noite nova. Não é
nem você é a dor da sombra
coberta pela noite infante.
você meu anjo é uma dor, você é...
e a manhã, a pasta de dente, o cigarro
o dia que começa e todos os sonhos
que tenho
e têm os seres humanos,
e eu que olho com cara de idiota
a face clara do céu. você.
Também não é tudo você, mas é muito
e se te perco choro
e se me perde choro,
Também eu não sou nada
e se me quer dou
e se te quero dou,
Já não somos claros e sem culpas e talvez
demore muito demore amar por amar
abraçar e sentir nossos corpos
e nossos cheiros meio adocicados e ternos.
Hoje a luz do sol bate em mim
em seguida nos seus olhos
e você pode fazer inquéritos
sobre as minhas sombras.


quarta-feira, 19 de junho de 2019

HISTÓRIA NATURAL DOS QUADRÚPEDES

Por ora, admitamos ser possível compor
a história natural dos quadrúpedes, sem,
contudo, esquecer que nada de natural há,
na verdade, na condição, ou melhor dito,
configuração ou desenho ou formatação
daqueles que caminham sobre quatro patas,
e a bem dizer, nem nos que sobre dois pés
se firmam e, por isso, bípedes se chamam.

Não nos esqueçamos, também, mais ainda,
que há entre os nomes e as coisas, entre
correr o leopardo com os olhos fixos e frios
a perseguir a impala, há entre esse movimento
e a tentativa pífia de reter esse fluxo
uma distância infinita, e nós não podemos 
traduzir, sequer, o pavor nos olhos dela;

O que se dirá, então, das cores, do sangue
que congela quando, à noite,  a lua descreve
uma parábola de dor e o leão urra
ainda com o gosto da fêmea percorrendo
o corpo quente, vaso a vaso, veia a veia
e o homem se deita e, perplexo, levanta
novamente, ouvindo uivar ao longe o lobo,
como de dentro de si ouvisse o canto sinistro.

Por ora, admitamos ser possível compor
a história natural dos quadrúpedes, sem
esquecer que ali onde a história começa, 
desfaz-se, para sempre, a própria natureza.
Pintura rupestre na Caverna de Chauvet - França



sábado, 15 de junho de 2019

ENÁLAGE

Quero saciar a infinita sede, a hórrida sede,
nos teus seios quero saciar a minha sede, quero,
antes que o meu próprio sangue em pedra se converta,
serenar a criatura sedenta que mora dentro de mim,
a criatura do deserto do meu corpo e da minha alma,
a mais infeliz das criaturas, cuja voz, do deserto, clama.
Quero deitar-me sobre os teus seios tão belos,
repousar minha cabeça sobre os teus seios nus.
Dá-me, mulher, amada, a vida que em teus seios habita,
dá-me o amor que habita, viscoso, a morada dos teus seios.
Red - Óleo sobre tela - L. Folgueira