segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

ELIAS ARREBATADO

Que todos os homens são mortais
é uma verdade que não se pode contestar,
exceto por esse acontecimento
às margens do Jordão:
Enquanto lhe caía o manto púrpura
Elias não deixou a vida
senão que, num redemoinho,
rasgou o céu num carro flamejante
puxado por cavalos de fogo.
As agruras de uma velhice na solidão,
as mazelas das doenças 
e das longas esperas;
os venenos acumulados no decurso dos anos,
o processo de morrer, não.
Nem a súbita descida a um reino escuro
para, depois, ascender ao sempre.
Ainda atônitos, os companheiros procuram 
por um homem no mundo dos homens
e já não encontram.
Procuram por um deus no mundo 
dos deuses
e Elias nunca foi deus,
pois os deuses são eternos,
de verdadeira imortalidade,
conquanto essa condição
não privou
da dor e do extremo sofrimento,
da infâmia de morrer
da morte mais infame
nem mesmo aquele que Elias vaticinou
que viria para derrotar e suplantar a morte,
por fim e 
eternamente.



sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O MENINO

Gostava de soltar os cabelos 
gostava de contemplar seus olhos 
gostava de ver seus olhos 
o que os seus olhos viam. 

Eu brincava de cabra-cega,
brincava com um peão;
eu brincava de amarelinha,
brincava de pega-pega;
eu brincava com figurinha,
brincava com um balão.

Eu corria tanto, tanto...
era veloz, veloz como um raio,
corria como um centauro,
a flecha de seu arco.

Os meus pés eram tão tristes,
os meus joelhos sangravam
para sempre;
sangravam como uma fonte,
como os joelhos de Cristo.

Gostava de soltar os cabelos,
gostava de contemplar seus olhos
para dentro do que são,
e conhecer o abismo, o nume,
assim como o navegante conhece
o horizonte para além do horizonte.

E na noite imensa ver
o horizonte indistinto,
e nem ver a noite na noite do que sinto.

 

A FRAGILIDADE DE TODAS AS COISAS

Freqüentemente penso na fragilidade
de todas as coisas,
as que existem em toda parte,
porque não são estatutos do eterno,
nem mesmo compõem o duradouro.

O tempo trabalha silenciosamente
e até a grande cidade, de onde a vejo,
está para não ser mais.
as casas, os edifícios,
a fuligem,
os grandes espaços entre uma parede
e outra,
entre uma altura e outra,
a tristeza desses vazios,
os habitantes que habitam seus lugares,
os habitantes que fazem coisas,
que agem sobre as coisas diariamente
seja um prato,
a roupa lavada,
seja o amor,
as grandes saudades mudas.

Porque é tudo invenção
dos homens,
o tempo mesmo e o trabalho
do tempo
são o trabalho dos homens;
e tudo é frágil porque também os homens,
suas ciências,
suas verdades, suas cidades.
sobretudo suas verdades,
desde as maiores e mais inacessíveis,
até as mais tolas e inexplicáveis:
Chove hoje na cidade,
os guarda-chuvas
negros. Negros.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

SONETILHO


Quando termina o amor, o que permanece?
A terra finda, o mar não principia.
Quando o amor termina alguém tece
Longo, longo bordado que desfia.

Cantilena da noite em noite fria
Sobre o tear da dor que enternece,
Alguém a morte vê que se anuncia,
Morte triste, o claro dia que envelhece.

Mas o amor era não muito mais,
Esse adiar o tempo de partir,
Esse esperar o sempre, o nunca mais.

Calar na carne o fim de tudo.
Calar a hora escura de urdir
a última trama na roca do absurdo.


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

SOBRE FORMIGAS E DIAMANTES

Não cabe a mim, nem a ti, ou qualquer outro decidir
ou não decidir sobre a vida. Que atitude tomar  
senão viver e continuar vivendo os dias e as noites, 
apodrecendo magnificamente e fertilizando outros campos? 

Não é de se formular objeções e lançar insultos ferozes, 
a vida não é uma instituição, não se revoga em congresso. 
Sob as estrelas inumeráveis, nas moléculas de teu sangue, 
meu amor, nenhum átomo do que se pode chamar de incorreto, 
nos pântanos pululantes de bichos e nas selvas calorosas, 
nos planetas desconhecidos e no centro do teu olho verde,  
uma coisa só incondicionada existia eternamente e antes, 
está nas formigas e nos diamantes, no gelo e no teu filho, 
está na escadaria da casa da tua mãe e na tela do cinema, 
está no teu sexo quente, como nas flores e nos ratos, 
nas galerias subterrâneas e nos peixes luminosos e cegos, 
no teu silêncio depois do amor e no grito do teu parto. 

Não cabe a mim, nem a ti, estarmos a julgar ou medir, 
para além dos meus prováveis setenta ou oitenta anos, 
para além do último filho de minha descendência, 
há a vida que não é uma coisa ou outra coisa, 
há a vida que não é inspiração de nenhum supremo deus. 

Não perguntes o que é que existe o que é que não existe, 
conceber o que não existe é uma doença da nossa pequenez, 
existe a vida interminável e vária, o céu azul, meu pé.



BENJAMIM

Benjamim já me esqueceu, 
porque as crianças, especialmente, as pequenas
não guardam por muito tempo a memória de coisas 
desimportantes.
Já não se lembrará de como puxou minha barba branca
e inspecionou os meus olhos 
abrindo-lhes bem as pálpebras a ver que ali dentro havia sangue.
Não se lembrará, tampouco, do livro que pediu
para que eu lesse, enquanto, irrequieto
me abraçava e, com a boca, fazia barulho 
encostando na minha pele e assoprando.
A maioria dos dias é só um passar de horas, é só,
e esquecemos, 
ou nada temos para lembrar que valha isso.
Quando se despediu, 
Benjamim colou um adesivo na minha roupa
e disse que era para que eu não o esquecesse
e eu, 
que nada posso contra esse terrível vendaval
que tudo apaga, com um sorriso no rosto, 
prometi que nunca, nunca o esqueceria,
por isso este poema.



quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

EU A VI PARTIR COMO SE FOSSE O CINEMA

Eu a vi partir como se fosse o cinema 
esse cinema que é a vida em determinados instantes. 
Sobre um balcão e nesse momento em que tenho olhos 
restou um garrafa de cerveja, 
o líquido jazendo imóvel.
(nossos olhos são pouco)
Restou a trajetória vista de um aceno de mão,
de uma despedida de aqui para nunca mais - Cinema
A lua é cheia e a noite devorou seu os cabelos;
para onde foi
que itinerário segue o ônibus tão irreal que a leva
a quem mais transporta?
para quais casas de nossas suspeitas?
que beijo recebe quem chega em algum lugar?
sob qual trabalho supõe a vida que escorre,
escorre
como uma lágrima?
que dia com seus sóis?
espera por todos
que obrigações e maçadas?
Como é vertiginosa essa solidão que está com ela
e que me restou
dentro dessa enorme dor que eu mal
sinto..
A lua devorou seus cabelos
e o corpo, que é o trigo,
permanece
no meu aniquilamento.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A NOITE DOS VAGALUMES

Tão grande é a noite sobre os arbustos-seus-vultos 
tão grande e profunda 

a noite dessa galáxia. 
no campinho de areia, 

no gramado do quintal da casa 

adormecida.
ali onde a mãe planta alfaces 

e cebolinhas,
na sombra desse outeiro, 

nos brinquedos
que são coisas grandes,
ali onde estão o cercadinho 

e o pé-de-laranja,
como pode haver essas luzinhas que voam?

Meu coração de criança cavalga ofegante
para o pé da montanha de Deus.


sábado, 29 de novembro de 2014

A CONSOLAÇÃO DE JÓ

Toda a vida é sofrimento.
E a mais infeliz das criaturas
é a que se apercebeu disso.
Fosse um réptil no deserto escaldante,
fosse o peixe que com a prata do oceano se confunde,
a pedra,
a errante estrela num céu de chumbo
e nada,
nada desse desalentado querer haveria,
e não haveria nenhuma promessa
que se não pode cumprir.
O leão arranca nacos de carne à zebra agonizante.
A serpente engole vivo o coelho que ainda vê, 
com seus olhos sem vida, 
o pasto orvalhado.
Morta, toda carne é confundida e não se sabe,
vivo, o trigo é separado.









sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A MORTE DE MOISÉS

Em qualquer latitude, 
em qualquer século
é a lastimável turba ignorante e apóstata; 
a gente lasciva
e sediciosa,
que não deseja nem almeja senão as coisas mais vãs;
Sim. É a vaidade e a luxúria,
a gula,  a sede de sangue.
São os parricidas, os corruptos, 
estupradores,
parasitas,
os usurários, escravagistas,
os que humilham e ofendem;
os que carregam látegos e se cercam de capatazes
e lacaios;
os mentirosos inescrupulosos; 
os acumuladores
de toda sorte; os ladrões.

São.
Estes são os herdeiros da terra; 
são os filhos queridos,
para quem o leite cobre os campos e os rios
se precipitam em torrenciais cascatas
de mel.

No alto do monte, inconsolável, 
sem poder compreender 
porque é
que essa ralé não tem ouvidos para ouvir
nem olhos para ver,
o velho alquebrado ainda recita um poema,
que ouviu de Deus num sussurro,
a inútil poesia como um alento:
os trigais a cultivar, o frescor da cebola,
os vinhedos perfumados;
Mirando ao longe o sol no oriente, 
como numa miragem,
a alma procura a escuridão. 
e a palavra se torna silêncio
que não se pode inscrever em tábua alguma.