segunda-feira, 20 de março de 2023

MORS OMNIA SOLVET

Morrer na solidão,
talvez a única eutanásia.
Nos não permitam os deuses esse acabamento,
como um velho elefante deixado para trás
pela manada indiferente,
ou que dela se afasta,
lento,
pesados passos sob o sol escaldante.
O decrépito leão
a servir de pasto às hienas,
o tigre esquálido, já mudo,
antes altivo felino.
A solidão das pradarias,
dos rios perenes.
do vento a balançar
as folhas das grandes árvores.
As imorredouras estepes verdejantes.
Padecer no silêncio.
Talvez, a verdadeira eutanásia,
o que nos deram os deuses ausentes.
Klimt - Morte e Vida

 

domingo, 26 de fevereiro de 2023

PASSEIO PELA ALAMEDA DE TÍLIAS

Quando senti as primeiras gotas de chuva, frias,
só então reparei nas nuvens,
negras,
que havia muito formaram-se e sombreavam,
imensas,
a alameda agora esquecida.
 
As nuvens,
nelas cada um vê o que quer;
umas com homens se parecem,
espantados,
outras, outras coisas lembram diferentes.
 
O tempo, as folhas caídas,
o outono em meu semblante.
A cotovia levantou voo,
nem ainda eu pude vê-la pousada,
marrom,
no galho do velho cipreste,
que sobre a tarde se debruçava.
Claude Monet - Ile Saint-Martin - Detalhe

 

terça-feira, 12 de abril de 2022

PARA ELA

Elegante e bela e jovem.

Há um tempo, apoiada a cabeça nos braços, 

adormeceu.

É certo que está cansada.

Bem assim eu próprio, 

a caminho do subúrbio 

nessa composição de trem.

É muito provável que nunca mais a veja,

e é certo que a nunca vi antes,

nem neste nem em outro caminho;

neste ou nenhum outro tempo.

Dela nada quero, nada pretendo.

Já me foi dado tudo.

Esse instante de encantamento.

A juventude que passou por mim,

relâmpago,

faróis do trem no sentido contrário,

e essa despedida.


Claude Monet - La gare Saint-Lazare- - 1877


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

A NATUREZA DO BASALTO

Deixar a praia,
a língua d'água sobre a costa escarpada.
Dentro do corpo telúrico,
da pedra porosa e funda,
da escuridão,
dentro da áspera noite de pedra e seca,
ali, nervos das profundezas,
sangue das cavernas,
ali nossa vida e origem,
o amor de ferro,
o coração basáltico,
o fogo que forjou o coração.
Port D'Aval - 1883 - Claude Monet

 

terça-feira, 25 de maio de 2021

INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS

Para Marina Ruivo

A volúpia e mesmo a melancolia voluptuosa, 

entre ocres e lúgubres cores depravadas.

De qualquer modo, não cairíamos

e qualquer gesto estava suspenso.

Suspenso também o tempo, inintelígel.

Não se suspende o espaço, este

criado pela palavra de um deus atônito,

ou pelo grito, 

única expressão do teu corpo sobre o meu



.

 




quarta-feira, 19 de maio de 2021

UXOR

Toma a minha mão

   ainda agora trêmula.

Já não me aquece o sangue 

      o vinho que da garrafa

se desprendeu

   e dela

     não se derramava 

qualquer líquido perdão.

      Procuro a tua face, o teu rosto, 

           para sempre

                    santificado.

Eu ergui altares e incensei 

       a câmara iluminada

e fiz preces

     e recolhi, aflito, 

as pétalas das horas.

 Hoje, sou o corpo 

    alijado das coisas do mundo,

    e há pedras acesas

               com o fogo frio da ausência.

A leitora - Jean-Honoré Fragonard
Jean-Honoré Fragornard - A leitora

 

segunda-feira, 1 de março de 2021

CIRRUS

Por vezes, pareço-me comigo mesmo,
tal como costumeiramente me faço representar,
segundo as minhas crenças...
Há, nesta hora, 
de sol a pino e meio-dia, 
ainda que timidamente e esparsas,
como a tingir com delicadeza
um céu de infinito azul e profundo,
umas quantidades das altíssimas cirrus.
Olho, o corpo estendido, e vejo:
Deixei na tarde incipiente de compreender.
Nem mesmo tenho a me compor
o teu olhar,
que me abandonou.
 

ROSA DO CÉU

O que vai ser de ti?
A rosa do céu, crescente,
desabrocha.
É tão tarde, Luli!
Penso em ti.
A noite desce sobre o casario,
sobre
as altas antenas
desce.
Edward Hopper - Morning sun

 

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

NAVIO NEGREIRO II

Não há neste mundo navios carregados de sal
nem nas docas e nos estuários da terra uma sequer gota de sangue.
Eis que os algodoeiros são prodigiosos cultivadores de si mesmos
e os laranjais se precipitam sobre as bocas
sedentas,
da mesma forma como a cana é o seu próprio
engenho
e toda essa gente saudável e bem vestida
pode sair a dançar em salões revestidos
de ouro,
pois o ouro instituiu-se autômato
e dispensa mineiros,
assim como dispensou os navios negreiros
e flutuava lentamente sobre as águas do Atlântico,
apenas para adornar as paredes de alguma
piedosa igreja,
a fim de que mais belamente
fosse pregada a igualdade entre os homens.
Navio Negreiro - Di Cavalcanti

 

domingo, 15 de novembro de 2020

ELA, A QUEM AMEI IMPERFEITAMENTE

Ela, a quem amei imperfeitamente,
está, agora, mesmo que disso
não saiba
a povoar os sonhos em mim
de um amor irreparável.
Com ela falo, silente,
e sem resposta
das vozes silenciadas dentro de mim.
Eu que perscruto a noite e perscruto
o dia
hei, afinal e inexoravelmente,
de não ter nenhuma vontade
e nenhuma dúvida.
Por ora, como o leão atado à sua presa,
como o gnu
preso à sua sina,
eu a ouço ainda, agônico,
agora,
agora e para sempre.

Edward Munch - Separation