sábado, 28 de fevereiro de 2015

CLAVE DE FÁ

(para Robson Barata)

A música desse lugar, eu disse,
é outra.
Sim, sim, você percebe.
Colinas e verde e névoa.
A chuva
arrasta os galhos dos ingás
debruçados sobre o rio.
Vê-se, claramente, como,
depois,
a vasta luz
esconde o casario e desce
sob as pontes como a água
a quase se não ouvir.
Paulo Kawal

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A LOUCURA NÃO MEDE PALAVRAS

O Navio dos Insensatos 
(A loucura como um acontecimento médico passível de tratamento só foi descoberta muito recentemente. Houve tempo em que os loucos eram apartados do convívio e lançados em navios que erravam pelos mares)

1.
Nesse mar de gelo,
nessas vagas fundas, nessa
espuma
branca.
Com essa nau, com essa
carranca,
para longe vamos nós
os estultos,
para longe vamos nós
e nossos vultos
loucos.

Ora cantamos, ora rimos,
ora remamos
um pouco...


2.
A água

        o sal da água
        a água do mar
        o mar da terra


a terra cai dentro da água
que permanece
água e água só.


3.

O Porto

Nós não deixamos o porto.
O porto é quem nos deixou
e vaga, infinitamente,
pelo horizonte sempre horizonte novamente.
O porto vai tão triste
e com ele o mundo todo.
todos os reis e todos os bobos,
todas as leis e todos os nomes,
todos os cordeiros com fome,
todos os famintos lobos.
daqui dizemos adeus e acenamos lenços
para o  mundo a chorar,
triste, escuro, suspenso,
vagando sem porto onde atracar.


4.

A Sereia

Onde está a sereia com seus encantos ?
onde está a sereia com seu rabo de peixe ?
onde está a sereia com seu triste canto ?
onde está a sereia com seu rosto de mulher ?
onde está a sereia para que eu deixe
o mar, a loucura, o que essa sereia quiser ?


5.

A espuma


É tão branca a espuma  marinha.
e nesse seu subir e revoltar
parecem umas com bichos,
outras com homens se assemelham.

A espuma é que nem a nuvem;
nela as mentes se espelham,
e vê cada qual o que quer.

Umas com anjos se confundem,
outras, outras coisas lembram diferentes
mas a espuma nada é e não se advinha.
a onda se ergue do fundo grosso-fosco
e ilumina os olhos dos mortos descontentes.


6.

A ilha

Não tarda que chegaremos à ilha.
a bem-aventurada, plena  de maravilhas.

A que se avista de onde a vista não veja,
a que está onde ilha outra não esteja,

Senão essa melhor ilha, a mais perfeita.
Que nós cremos e o sábio suspeita.




7. Os ventos

Nossos caminhos são os ventos da rosa
que multiplica as pétalas e soma pétalas airosas,
nossos caminhos são os das asas do albatroz
em seu vôo planetário e calmo,
entregue ao vento , sob a luz da lua,
num movimento entre uma valsa e um salmo,
nossos caminhos são a pura hora nua,
que não há pelo rude continente e feroz. 


8. 

A carranca

singra         as velas
o mar        de safira,
e sangra      com elas
o céu         se retira


protege        o navegante
do cão        tristonho 
o coração      no ocaso 
herege        medonho.

9.

Canto do Comandante em Chefe e sua Ninfa

O Comandante

Para onde este barco sopra
é que vai seguindo o vento.
para onde correm tuas lágrimas,
conduzo meu pranto e meu lamento


A Ninfa

Para onde teu barco gira
giram, do meu vestido, as rendas,
para onde teu triste olho mira,
o meu olhar o amor desvenda.

O Comandante

Lá onde vãos os deuses e os mitos,
lá onde vãos meus olhos e meus dias,
para onde o céu é azul e infinito
estarei em tua companhia.

A Ninfa

Lá onde é certa e grande a luz e divina
lá onde o mar é maior que a beleza maior
é que em teu peito pousarei, senhor,
minha cabeça de mulher e menina.


10.
Epílogo (Canto de Júbilo)


O mar nos enche a alma,
exultemos.
as latitudes nos libertam,
exultemos.

Não temos padres,
exultemos.
não temos credores,
exultemos.

Os reis não nos sabem,
os súditos nos não conhecem,

Conhecem-nos os peixes de prata
e os seres pequenos,
sabem-nos os ouros celestes
e as marés sensatas,

As aves do firmamento terreno
os anéis das estrelas brilhando.
conhece-nos o tempo de quando
não há nomes nem vestes.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

EM HONRA DE DULCINEIA

A tarde era um mar
um mar
o grande mar

e não me contive
tenho dedos nervosos
e um membro propositor

nessa tarde aquele teu pé
                           que existe
aqueles teus peitos que existem
essas nádegas que são tuas
esse meneio de pernas
esses lábios carnudos
essa brancura em todo o teu tamanho
em toda a tua força,

tenho dedos agitados e longos
e um membro
um fruto brutal

nessa tarde azul do azul dos azuis
bati essa punheta
em memória de ti.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A HORA

Dizem os filósofos que talvez fosse melhor 
não ter nascido 
e tudo ser a paz dos campos, dos vales, 
das aves, 
a paz das alturas celestes, do mar,
do segredo.
É, no entanto, um milagre palmilhar a senda
da vida,
e, no tempo, no instante, na centelha,
percorrer a distância e seguir
o distanciamento.
O que dizer da morte
quando apenas a figuramos e lhe emprestamos
um caráter,
o que dizer do que está para fora de nós
e nos retira para fora de nós ?
O que dizer da hora medonha ?
A hora intrépida que se insinua na decrepitude,
na enfermidade,
que escurece o rosto da criatura,
a perguntar na cruz,
pai, por que este abandono ?
A hora, a única,
o rebento,
a infante
que vem participar dos folguedos infantis.
O que dizer da morte
quando ninguém a pode dizer ?
O nevoeiro,
a cilada ?
a insuspeitável, o que dizer senão que nos toma
e nos cala de repente (Rilke)
no silêncio dos campos, dos vales, na paz dos campos,
dos vales,
das aves,
na paz das alturas celestes, na paz
das hostes celestiais.