sexta-feira, 20 de julho de 2012

SONETO DAS BALEIAS


As baleias brincam e soltam borrifos 
azuis na água azul, com perícia e arte 
maior que a maior arte de todos os grifos, 
e são elas brancas, orcas, jubartes. 

As baleias não são peixes, são antes e 
antes de serem bois disfarçados e gigantes, 
estrelas de constelações distantes, 
que as não percebe a mente nem olho as vê. 

Senhoras desse mar do nosso encanto 
que cantam e fazem ecoar o pranto 
mesmo do universo e o seu segredo, 

as baleias cruzam o mar do nosso medo, 
fazendo-nos ainda que nunca o queremos 
homens pequenos dos mundos que não temos. 
imagem colhida no google

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A SEPARAÇÃO

Lugar nenhum 
é esse em que nos encontramos
agora
e não diga nada 
porque palavra nenhuma
razão para dizer
nem por isso, meu amor, 
estamos silentes
e nem por isso
perdidos.

Sobre a matéria das coisas
sobre o brilho
das coisas
sobre as sombras de toda vida
cantamos - 
com nossa voz menos dura
um salmo:
perdão.

Estamos de mãos dadas e partimos
para não querer nada
para não perder nada
não porque estamos absolutos
mas porque não nos distinguimos
de nada.
Eugene Manet on the isle of wight

domingo, 1 de julho de 2012

NA

Nenhuma com ligeiros passos, com seus laços 
gracios- 
os braços entr'as dançarinas roda, gira 
estira 
o tempo, seu passar, faz jazidos dias  
revindos. 

Nenhuma entr'as canto entr'as pastoras 
caminha semblando o sol semblado 
semeando vinhas de ver- 
des uvas 

Nenhuma entr'as mulheres em suas casas 
de asas 
revoa a noa noa, vento perdoa 
esse desatento 
a desatar os perjazidos dias meus feridos. 

Nenhuma com calmas mãos perdoara. 
Theodore Hassam (American Impressionist painter 1859-1935) Improvisation 1899


segunda-feira, 18 de junho de 2012

O POETA

(Para João Luis Malange) 

Embora sendo fevereiro 
fosse agosto ou dezembro, 
por processo normal do universo, 
houve de rebentar  
de alguma barriga, 
algo de humano e carne. 
E fizeram bolos e poemas 
e alguns segundos bastaram, 
vários olhos se entristeceram, 
vários palhaços fizeram palhaçadas 
vários operários 
fizeram coisas úteis 
aos braços e aos corpos. 
As cidades estavam povoadas 
e não caberia que se nascesse mais, 
mas 
era teimoso e disse 
"a ".

sábado, 2 de junho de 2012

APOCALIPSE

Depois da porta de vidro 
depois 
do brilho  desse sol 
quase me cegando 
depois do automóvel 
depois da rua 
há um letreiro.
Difícil 
ver daqui o anúncio. 

Leve música de talheres
embala 
esse meio-dia      
claro. 
                      
O rádio 
grita  de guerras possíveis -
ogivas 
atômicas -
vocabulário  apocalíptico.

Não sei que símbolos 
se propõem agora 
a ser o momento -
uma mulher olha o relógio 
é tarde 
é tarde nos seus olhos 
é tarde 
no meio dia claro 
é tarde nos edifícios 
onde o sol se recolheu, por fim.
É tarde no cinema 
na China 
é tarde na Inglaterra,  em Antuérpia 
é tarde 
e os diamantes brilham demais. 


sábado, 26 de maio de 2012

DA BREVIDADE DA VIDA


São duas horas da manhã, Talvez durmas... 
neste momento eu me pertenço, e assim,  
realizo em  mim uma fantasia 
a saber, 
a de que, neste momento, não pertenço a ti. 

Ainda posso sentir em  minhas mãos  
o calor e  a  maciez  de  uma mão de mulher. 
Indeterminada mulher que está, que corre, que escorre 
no meu sangue.

Resiste entre os meus dedos alguma coisa 
que é como a sensação de tocar, porém, 
mais concreta, mais viva. 
Vive em mim o toque, 
o toque branco de  mãos que se revolvem no meu 
estômago  
junto ao líquido elemento 
dessa bebida intraduzível, que eu, 
por cansaço, chamaria 
de madrugada.   
imagem colhida no google

sábado, 12 de maio de 2012

O COMPLÔ MUNICIPAL DE POESIA

Falta  toalha na mesa 
do complô municipal de poesia. 
A sala é por demais clara 
e os homens do complô municipal de poesia 
por demais polidos. 
Não há tristeza na sala, 
nas luzes, 
nos homens,  
não há bêbados homens 
no complô municipal de poesia. 
Sério: 
não há poesia por enquanto 
no, nem bem começado, 
complô municipal de poesia. 
A poesia ficou do lado de fora 
no subir e descer de escadas 
no bater de tamancos e 
caindo da lua; 
a rua ficou longe 
e minha tristeza é grande, 
se expande. 
Tudo o que tenho 
de poeta e de homem 
não cabe neste espaço. 
O fato se realiza, 
deslizam a falar os doutores letrados 
do complô municipal de poesia. 
Vincent Van Gogh




quarta-feira, 9 de maio de 2012

NARRATIVA DA CRIAÇÃO

Primeiro foram os céus , 
foram as trevas   os mares  
a luz do sol  
primeiro foi sendo o mundo belo. 

Quando falas é o sibilar de uma serpente 
e a minha alma está envenenada 
e comovida.  Primeiro dia. 

A cidade foi o enigma 
indecifrável 
E tu estás para fora de todo o movimento. 
segundo dia. 

As multidões caminham imaginárias  
ruas 
lindas e tristes. terceiro dia.. 

Há um frenesi constante 
festas , casas de alegrias diversas,  
teatros, máquinas. quarto dia. 

Eu sei que o dia não existe 
e que a noite foi uma vaga esperança. 
no centro do mundo carrancudo 
teu sorriso 
cada dia menos visível. 
quinto dia. 

Desse pó e dessa lama 
dessa planta descolorida e precária 
do grito último no cinema 
do desencontro sob a chuva 
do trago seco dessa bebida ruim 
de conversas 
do sexo apressado e estéril 
eu quase me tornei homem.   sexto dia. 

No sétimo, o caos. 
a água expulsava os peixes  
e os homens se matavam. 
na casa da moça amada deixei segredos, 
o espírito da angústia habitava o coração de deus.
Olive trees - Vincent Van Gogh



terça-feira, 8 de maio de 2012

POR NÃO SABIDO ARTERIAL MISTÉRIO

Faleceu na noite, por não sabido arterial 
mistério 
o homem comum. 

Da vala comum soprou uma brisa mortal 
de ausência. 

Entretanto somos iguais, entre tantos, 
na noite pelo caminho, sob a luz, 

mundo de minério, 
ciência. 

Nenhuma porta de vidro pode nos guardar, 
e canção nenhuma conter o que há de ânsia, 

nem se pode relatar com absoluta franqueza 
o que aqui se pretendeu. 



segunda-feira, 23 de abril de 2012

OUTRO PLANETA

O outono em meio 
ao meu rosto úmido 
da manhã, 
aquele nosso segredo, 
pão de centeio, 
carne sedosa da maçã, 
eu não tenho medo, 
o outono, a cor, o dia 
o sol meio perneta, 
É só que o meu corpo havia, 
no teu,  
outro planeta.
 
Sacred Spaces Flyer - Jenny Meehan


sábado, 21 de abril de 2012

OMNIA SOL TEMPERAT

Tudo o sol doura, teus cabelos; 
ficamos em silêncio na tarde iluminada. 
As aves do firmamento 
e os animais da terra aquietaram; 
apenas, nos caminhos do tempo 
o embate desses meus olhos 
contra os teus 
e palavras nenhumas; 
não te quero dizer do amor 
cuja chama queima minha alma eternamente; 
e digo. 
Nem clamar que aplaques uma sede infinita; 
e clamo. 
Há água suficiente feita desse instante claro, 
que é quando por uma chispa de ternura 
o teu braço roça o meu braço, 
o teu cheiro percorre o ar do dia. 
Ainda não houve nenhuma noite 
e nenhum encontro, e, 
por isso, 
a lágrima inaugura essa aurora.
Henri Lebasque

terça-feira, 17 de abril de 2012

NÚMERO DE DANÇA

Deve ter-se muito cuidado, 
não descuidar a vida e seu movimento; 
e nos nossos tempos
atenção, 
o vento traz odores 
malévolos. 
A porta, a porta aberta, 
os olhos, 
os olhos. 
                   O teu corpo é um santuário 
                   O teu corpo é a tua alma. 

Não se deve dançar no baile das máscaras, 
             não se pode marcar esse ritmo 
                     embalar-se nesse 
descompasso. 
As dobras do vestido se desfazem 
as lágrimas embotam o salão 
Tua figura de dança 
                      os teus pés ligeiros 
os teus sonhos. 
Não se deve dançar com a morte.

sábado, 14 de abril de 2012

SOBRE FORMIGAS E DIAMANTES


Não cabe a mim, nem a ti, ou qualquer outro ou a nada 
decidir ou não decidir sobre a vida. Que atitude tomar  
senão viver e continuar vivendo os dias e as noites, 
apodrecendo magnificamente e fertilizando outros campos? 

Não é de se formular objeções e lançar insultos ferozes, 
a vida não é uma instituição, não se revoga em congresso, 
baixo às estrelas inumeráveis, nas moléculas de teu sangue 
meu amor, nenhum átomo do que se pode chamar de incorreto, 
nos pântanos pululantes de bichos e nas selvas calorosas, 
nos planetas desconhecidos e no centro do teu olho verde,  
uma coisa só incondicionada existia eternamente e antes, 
está nas formigas e nos diamantes, no gelo e no teu filho, 
está na escadaria da casa da tua mãe e na tela do cinema, 
está no teu sexo quente, como nas flores e nos ratos, 
nas galerias subterrâneas e nos peixes luminosos e cegos, 
no teu silêncio depois do amor e no grito do teu parto. 

Está tanto e em tudo de forma tão completa e diversa, 
confundindo os padres e os profetas barulhentos 
intrigando os filósofos e suicidas convictos 
inaugurando constelações que nunca veremos. 

Não cabe a mim, nem a ti, estarmos a julgar ou medir, 
para além dos meus prováveis setenta ou oitenta anos, 
para além do último filho de minha descendência, 
há a vida que não é uma coisa ou outra coisa, 
há a vida que não é inspiração de nenhum supremo deus 

Não perguntes o que é que existe o que é que não existe, 
conceber o que não existe é uma doença da nossa pequenez, 
existe a vida interminável e vária, o céu azul, meu pé.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

ELEGIA

Tudo é falso como no teatro.
Quando se apagam as luzes,
E se retiram esses pontos, 
Tudo é falso. 

Certo. Não tivemos escolha.
É preciso tomar ônibus
E nós tomamos ônibus.
É preciso trabalhar na fábrica
E nós trabalhamos na fábrica,
E fabricamos.

É preciso reparar na vida,
nós reparamos na vida.
É preciso assinar promissórias,
Nós assinamos.
É preciso amar até a morte,
nós amamos e morremos. 

Certo. Certo. Certo. 
Estamos neste tempo triste, 
E mesmo aqui tudo é falso,
Como na vida.

E a verdade é o que a palavra  encerra,
Nessa mudez de palavra. 
Nessa tentativa de dizer.
Joan Savo

quinta-feira, 12 de abril de 2012

BRUNA

O mundo é um teatro doido e baço,
Bruna, e ninguém sabe o que faz.
Levantam casas, desfazem os laços,
apertam as mãos e um beijo se desfaz.

O mundo é um brinquedo chato, um gato
vagaroso e triste, um cachorro vadio.
O mundo é um lugar cheio de vazios,
que nós temos de encher de fato.

E nós, Bruna, somos crianças. Eu que
envelheço e canto. você que brinca, dança
e vai enumerando sonhos e porquês.

Porque o mundo é também a nossa cara,
uma palavra minha, uma sua trança.
Coisa linda a que nada no mundo se compara. 
Robert Hagan 1947

PORCELANA

Na verdade não há mesmo meninas
de porcelana
nem há no mundo o que possa ser
irreparável.
Na verdade são símbolos teu rosto
e teu corpo
teus olhos ainda cheios de brilho
e teus pés diminutos.
Não há no mundo os anjos celestes
nem promessas.
Não há no mundo, nem poderia,
um azul sem mancha alguma
de alguma dor.
Não há nem mesmo no mundo todo
uma hora calma
um instante sem medo, sem culpa,
sem dúvida que agite o peito.
Contudo, em meio a tudo,
na instituição do dia e seu comércio
na monotonia das horas e no falarem
e falarem os homens,
há um sinal preciso, urgente e definitivo,
um sinal inequívoco de que é possível
o bem, o amor, a claridade, a vida.


NOITE

 A noite é como a chuva
(aquela chuva que Luiz Tatit cantou
que faz as pessoas tristes felizes contrariadas
reconfortadas num átimo)
ando na noite imensíssima
ouvindo seu canto melismático
e tudo na noite está escuro
e ilumina
as pessoas vistas desse trem
as casas
as fábricas
as avenidas que não têm fim.
(o amor é tão doído a noite)
Houve tempo em que os homens pensaram monstros
na noite
agora há a cidade que não se pensa
e é hora de redimirmos o engano
e passear na noite como no jardim.
Está na hora, cavalheiros,
de não temermos nenhuma espécie de beleza.


NOTURNO

A noite não passou ainda, a noite 
como um espelho, como um espelho velado. 

Tua imagem e teu corpo 
que é fresco como a terra, 
como a terra molhada. 

Quero morrer em teu corpo, 
que é fresco como a terra molhada. 
Eu ainda me lembro, 
eu ainda me lembro. 

Quero esquecer a vida, quero 
mil vezes esquecer a vida. 

Pousa como a noite a tua mão, 
a tua mão de seda, 
pousa a tua mão macia 
sobre as pálpebras minhas fechadas. 

A noite vai passando ainda. 
Cobre-me de beijos, 
cobre-me de beijos como uma mortalha. 

Como se eu fosse a terra 
pela chuva tocada; 

como se eu fosse a terra, 
a úmida terra beijada. 
Girl in white in the woods - 1882 - Vincent Van Gogh

quarta-feira, 11 de abril de 2012

DALVA

O mármore branco 
da mesa 
não é mais claro 
que tuas mãos 
e é mais branco 
quando postas sobre a mesa 
a claridade mesma  
ensinam 
nem outra coisa 
senão a aurora 
a paisagem é - 
do mármore 
das mãos 
e teu batom. 

E se claramente se observa 
nasce o dia em teus olhos 

branco e vermelho 
branco 
chuva dos teus cabelos 
negros. 

terça-feira, 10 de abril de 2012

PRECE

Ave Maria, gratia plena

a luz da tarde dessa quinta-feira

se esvai. a luz da tarde. cambaleando.


pela rua cubatão são paulo l6 de abril 1992.


Maria


os edifícios expõem a negra face


nunc et in hora mortis nostrae


ora pro nobis


eu te amo Maria


mas o amor não é nada


presta atenção


os automóveis é que são


eternos,


e a sombra nos cobrindo.


Dominus tecum


a luz da tarde dessa quinta-feira


benedicta tu in mulieribus


bendita tu entre todas as coisas


e bendito o fruto qualquer


e o ventre qualquer.


OCIDENTE

Nessas horas absolutamente 
abandonadas, 
céu abandonado, 
espaços de abandono, 
a cor de ouro em paredes 
e vidraças, 
Deus é mudo, 
e o universo 
sua voz. 

Penso que é tarde, 
posso pensar, 
porque o meu corpo participa 
do abandonado, 
e é como um cansaço, 
não do esforço, do dia, 
das horas. 
E, talvez, nem cansaço, 
uma parcela de morte, 
uma melodia da lira de Orfeu. 
Antibes, View of the Cap, Mistral Wind, 1888 - Paul Signac


O DIA DA REVOLUÇÃO

Mãe 
não faça a marmita do mesmo gosto de feijão, 
faça diferente, pensando que é sábado ou domingo 
Mãe 
pode ser inútil esta minha ida à vida, 
mas veja que ando sem ninguém mandar, 
veja que falo sem ninguém falar, 
mãe, eu amo 
sem ninguém achar o diabo do amor. 

Mãe,  
vou trabalhar, e hoje as vozes gritando, 
os ouvidos todos ouvindo, mãe, 
apronta logo minha hora, 
estou com fome, 
não vejo a hora, almoçar, 
mãe, mãe, 
oh mãe, minha mãezinha, 
tudo isso 
hoje parece festa, 
meu almoço tem de ter fitas 
tem de ter carne na marmita mãe,  
para que eu não sinta fome 
da carne que anda nas ruas, 
para que eu não sinta ruas, 
para que eu não sinta solidão, 
mãe, 
não agüento mais esta demora 
vamos embora, 
Apronta logo esta marmita 
do dia da revolução, mãe. 


segunda-feira, 9 de abril de 2012

PARA UMA MENINA MORTA

Dizem os filósofos que talvez fosse melhor 
não ter nascido 
e tudo ser a paz dos campos, dos vales, 
das aves, 
a paz das alturas celestes, do mar, 
do segredo. 

É, no entanto, um milagre palmilhar a senda 
da vida, 
e, no tempo, no instante, na centelha, 
percorrer a distância e seguir 
o distanciamento. 

O que dizer da morte 
quando apenas a figuramos e lhe emprestamos 
um caráter, 
o que dizer do que está para fora de nós 
e nos retira para fora de nós ? 

O que dizer da hora medonha ? 
A hora intrépida que se insinua na decrepitude, 
na enfermidade,  
que escurece o rosto da criatura, 
a perguntar na cruz,  
pai,  por que este abandono ? 

A hora, a única,  
o rebento,  
a infante 
que vem participar dos folguedos infantis.  

O que dizer da morte 
quando ninguém a pode dizer ? 

O nevoeiro, 
a cilada ? 

a insuspeitável, o que dizer senão que nos toma  
e nos cala de repente (Rilke) 

no silêncio dos campos, dos vales, na paz dos campos,  
dos vales, 
das aves, 
na paz das alturas celestes, na paz 
das hostes celestiais.  

O BRILHO DOS TEUS OLHOS

Não me deitarei na cama a sonhar teu
Rosto claro, imagem que não me move.
Não lançarei impropérios contra os céus;
Despautérios quando é tarde e chove.

Não te isolarei deste tempo triste,
Desta miséria que está sempre conosco.
Se os teus olhos brilham, é um brilho fosco
Se choram, sinal de que bem viste.

Amo não o que és e os teus mitos,
menos tuas palavras que os teus gritos,
Amo, e assim, sigo pedra por pedra,

Construindo a futura vereda.
As nossas repúblicas futuras.
Sem disfarces, sem dores, sem frescuras.


MANHÃ


Se a noite 
nega a geometria 
encontro o Bem 
em lembrar-te 
e guardo 
nos olhos imóveis 
tua forma 
clara e precisa 

Assinalo 
o ponto luminoso 
possível 
instantâneo 
universo quantum 
Big Bang 
expandindo  
para a hora do sermos. 
Manhã. 

O CAMINHÃO DE LIXO

O caminhão de lixo chega soltando fumaça
pelo nariz,
e seus pés enormes, fazendo estrondo, pisam
o céu.
O caminhão de lixo vem arrastando carcaças
de animais, 
e os homens vão levando tudo o que na rua
está posto,
tenho medo porque sou pouco e de mim quase
nada sobra, 
nem o amor que tenho, nem meus brinquedos
de giz.
Mas a cidade deve estar limpa e quase nua,
sem véu,
sem os restos de dores dos que se martirizam
pela obra
de construir a vida, de inventar tantos segredos
banais.
Tenho medo que me levem esses homens vorazes
e sem rosto. 



domingo, 8 de abril de 2012

SONETILHO


Quando termina o amor, que permanece?
A terra finda , o mar não principia.
Quando o amor termina alguém tece
Longo, longo bordado que desfia.

Cantilena da noite em noite fria
Sobre o tear da dor que enternece,
Alguém a morte vê que se anuncia,
Morte triste, o claro dia que envelhece.

Mas o amor era não muito mais,
Esse adiar o tempo de partir,
Esse esperar o sempre, o nunca mais.

Calar na carne o fim de tudo.
Calar a hora escura de urdir
a última trama na roca do absurdo.


VARDARAT, GHIBLI, ZÉFIRO, LEVECHE, ETESII, KHANSIN

Diz o poeta que só de ouvir passar o vento valeu a pena ter vivido. 
Ontem o vento soprava forte e escuro, e mudava constantemente de direção. 
As folhas das árvores agitadas gritavam estranhas palavras, 
e era o próprio vento quem lhes as soprava nos ouvidos verdes.

Em todos os tempos e em todos os lugares os homens deram nomes aos ventos,
como a tudo. Dar nome é uma maneira de adquirir algum poder 
sobre a coisa nomeada, nas mais das vezes porque tudo se nos escapa, 
tudo é estranho e indizível, tudo é o não sei o que.

Os ventos que sopram sobre as ruínas de antigas cidades; 
os ventos que sopram sobre as lavouras, sobre os pastos; 
os ventos que sopram do mar; os gélidos e duros ventos do norte; 
Nós que somos apenas um sopro e o pó levantado, como diz a antiga sabedoria.

O nome do vento, para que ele nos ouça, o nome do vento 
para que seja nosso irmão; o nome; com que nome me chamaria o vento? 
eu que não me posso mover além dessa fragilidade;  
eu que fraquejo no deserto, enquanto o vento quente e poderoso me arrasta. 


EM CONFORMIDADE COM UM CERTO EPIGRAMA

Eu bem que podia passar sem o teu rosto; 
(Et vultu poteram tuo carere) - Marcial -
e a noite passara em mim, o silêncio me cobrira. 

Eu bem que podia passar sem os teus olhos; 
adviesse o dia cálido, 
seu manto de luz. 

Eu bem que podia passar sem os teus seios; 
sem as tuas pernas; 
sem as tuas mãos. 

Eu bem que podia passar e não me fatigar 
enumerando; 
eu bem que podia passar sem ti, 
inteira e teu perfume; 
inteira e teu hálito; 
e não me fatigar enumerando. 

O HOMEM

Sempre
a condenação:


Serás!

E mais: saberás com teu olho divisar
dentes na boca que sorri

e o sistema solar e a Via Láctea
e o abismo.

Teu passo sobre a rua e o peso da língua
de mil músculos.

Teu passo sobre a rua e a rua interminável

movimento
de servidão

Um pé no Saara, outro pé
e outro pé e outro em Marte.

Tanto amor,
tanta desgraça.

O degredo
de se comover porque o céu é azul,
e porque é assim mesmo
o que comove,

Nada.

Deus olha sombrio e incrédulo,
e no olho grande de Deus

vergonha,
medo.



quarta-feira, 4 de abril de 2012

TRANÇAS

Beatriz foi o meu primeiro amor, 
mas eu recordava Cláudia todavia 
e lhe queria muito bem. 

Depois foram outras dezessete 
(para não ser conta de mentiroso). 

Dezessete nomes e figuras, 
Dezessete fontes e cinturas. 

Eu, hoje, aprendi bem o amor. 
Plantei rosas no jardim do peito. 

Essa moça que anda, fala, dança 
e circunscreve a cidade fria, 
quem sabe não estenda a mão vazia 
e colha uma flor dessa minha trança. 

segunda-feira, 2 de abril de 2012

MEMORIAL


Comprei ontem, em uma loja do centro da cidade, uma pequena caixa de música. É estranho, mas ao ouvir o som delicado e até melancólico, tive a nítida sensação, ou antes, a alucinação de estar cruzando a rua onde moravas. Eu era jovem e tu eras jovem. Havia árvores de onde caíam gotas frias da água da chuva que se acumulara; havia o longo muro da escola onde eu escrevi, com tinta spray e olhos marejados, o teu nome divino e as palavras “eu te amo”; havia a cor azul da janela da tua casa e a cor azul do céu no dia em que eu te vi pela primeira vez. Havia - meu Deus, como me lembro - a cor negra dos teus cabelos, a cor negra dos teus cabelos.
Só hoje me dou conta daquela imensa felicidade; só hoje me dou conta que a felicidade está sempre na distância desses dias periféricos. Dias luminosos e de preocupações tolas; de mães que gritam chamando para o jantar; de furtivos olhares crispados de luzes e pequenos poemas colhidos como flores do peito. Só hoje me dou conta desse arrebatamento. Eu que endureci
e me tornei pesado, de pesado passo. Ouvindo o tilintar dessa coisa simples que é uma caixinha de música, parece que caminho agora com a leveza, não dos meus, mas daqueles teus passos. Leves passos de menina, que ao invés de gravarem no chão alguma pegada, iam escrevendo pelo caminho a palavra “amor”.

Gladys Maldaun

MIRIAM

Miriam era um nome mágico e o som, tantas vezes pronunciado baixinho, como em segredo, era uma chave da minha imaginação infantil. 
Nesse tempo eu era como que o herói ladrão de alguma floresta inglesa, ou o bravo cavaleiro que pelos campos verdes desfila sua elegância corajosa. Miriam é o nome do que para mim foi o encontro com a misteriosa coisa a que chamamos de amor. 
O tempo costuma conduzir as coisas para o véu indistinto do que se perdeu, para a nebulosa região do esquecimento. O que eu fui quando criança e os tão longínquos sentimentos que habitavam o meu coração inábil são hoje a tentativa inútil, a frustrada tentativa de caminhar como quem sonha.
A bicicleta, o sol, o muro da casa, a rua. O vento, o vestido, a briga na calçada. O futebol, a caixa de sorvetes, a escola, a chuva. Miriam tinha cabelos negros e curtos; Miriam vivia em uma casa bem cuidada e sua mãe cozinhava muito bem. Amei Miriam em segredo. Apenas gritava-lhe o nome junto a um riacho, longe de ouvidos humanos, longe do que não fosse mágico, longe da possibilidade do desencanto. Gritava-lhe o nome e observava a resposta da água a passar sobre os cascalhos - a sua palavra fugidia.